Um clássico por mês: O apanhador no campo de centeio

"Choveu na porcaria do túmulo dele, e choveu na grama em cima da barriga dele. Chovia por todo lado. O pessoal todo que estava de visita saiu correndo para os carros. Foi isso que me deixou doido. Todo mundo podia correr para dentro dos carros, ligar o rádio e tudo e ir jantar em algum lugar bacana - todo mundo menos o Allie. Não aguento um troço desses. Eu sei que é só o corpo dele e tudo que esta no cemitério, que a alma esta no céu e essa merda toda, mas assim mesmo não podia aguentar aquilo. Só queria que ele estivesse lá. Quem conheceu Allie entende o que estou querendo dizer." 

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Acho que deveria mudar o nome da coluna, já que a última foi há meses, mas me daria um trabalho gigante fazer um banner novo, então, vai ficar esse mesmo, ok? Mais então, por que será que é mais difícil escrever sobre aquilo que gostamos? Por exemplo, se eu tivese detestado a leitura, eu saberia enunciar para vocês tudo aquilo que me desagradou, mas acontece, que eu realmente amei esse livro, e para mim esses são os mais difícies de resenhar.

Holden não é um personagem fácil de gostar, no começo, achei que ele estava reclamando de barriga cheia, sabe, ele tem um família que o ama, condição financeira acima da média que lhe permite uma série de privilégios, então fica meio difícil entender por que o personagem não se esforça em nada e reclama tanto de tudo e de todos.

Então nesse comecinho me bateu um medo: "será que depois de tanto tempo querendo ler esse livro, eu vou achá-lo uma porcaria?", isso acontece muito quando a gente se enche de expectativa (o que ocorre comigo sempre), por isso parei um pouco e decide retomar a leitura depois. Foi uma excelente ideia, já que assim que retomei o livro e fui conhecendo mais sobre Holden e percebendo sua personalidade solitária e arrogante, me afeiçoei ao personagem, e não pude parar até chegar a última página.

Eu acho que de todos os livros que já li, eu nunca encontrei um personagem como Holden, nem mesmo o Charlie de As vantagens de ser invisível, que é um personagem que se assemelha, mas Charlie é um garoto doce, e Holden é ácido puro, ele reclama de tudo, principalmente do comportamento das pessoas, parece que todo mundo esta sempre fazendo as coisas de modo errado para ele, ou como ele gosta de dizer, de modo falso.

Mais é aí que você para e pensa: "Até que o garoto tem razão." E você se lembra que esse tipo de comportamento não é tão diferente daquele seu de ficar sentada na cantina da falcudade fazendo notas mentais sobre o comportamento dos outros, os julgando sem nenhum pudor. Chegou um momento da leitura que ficou dificil não se indentificar com o personagem, também não gosto de gente falsa, mas quem gosta? De pessoas que fingem ser o que não são para parecer legal, ou que agem de modo diferente com pessoas de status diferentes, ou de pessoas que não dizem o que pensam, e repetem o senso comum, a lista é grande, e isso deixa Holden maluco.

Ao mesmo tempo em que ele parece não querer se envolver com essas pessoas das quais ele vive reclamando, você percebe o quanto ele é carente, o quanto é deprimido, e solitário, o quanto por mais que ele não goste dessas pessoas, ele vive se cercando delas, seja, convidando um ex-colega de escola, que ele considera um cretino, para um drink, ou aquela garota, bonita, mas que ele acha falsa, para um passeio.

“Fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto - quer dizer, ninguém grande - a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer.”

Quando Holden fala do irmazinho que morreu, até os mais insensíveis se deixam abalar, a relação dele com os irmãos é a mais linda possível, o Allie, que morreu, esta sempre em seu pensamento, ele lembra de momentos que viveram juntos, e de como gostaria de mudar algumas coisas, e como o irmão era sempre bom em tudo que fazia, eu não segurei as lágrimas em algumas passagens. A relação dele com a irmã mais nova também é linda, os dois conversam, brigam, ela puxa a orelha dele, ele quer o melhor para ela, e a cena final com os dois no parquinho foi perfeita.

Acho que Holden não tinha nenhuma perspectiva de futuro, e não ligava exatamente para o que ia acontecer com ele, para mim ele não estava assim tão ansioso para crescer, ele tinha medo de ser tornar como os outros, falso em suas atitudes e pensamentos. Ele não promete que vai melhorar ou se esforçar, já que ele não sabe como vai agir no futuro, segundo ele, também não tem como saber. E isso me deixou ansiosa demais, por que eu terminei o livro cheia de questionamentos sobre o que aconteceu com Holden, como foi o futuro dele? Será que ele teve algum? Se teve, conseguiu se livrar da falsidade, ou se tornou aquilo que ele mais temia? Eu comecei o livro achando que não fosse assim ser tão bom, mas quando cheguei a última página, ele se tornou um queridinho, um livro que eu vou querer reler diversas vezes, por que sinto que Holden ainda tem muito a me dizer.

“... como é que a gente pode saber o que é que vai fazer, até a hora em que faz o troço? A resposta é: não sei. Acho que vou, mas como é que eu posso saber?...”

9 comentários:

  1. Eu tenho muita vontade de ler esse livro, ainda mais depois dessa resenha. Acho que o Holden tem razão mesmo, sempre tem um pouco de falsidade quando as pessoas se tornam adultas. Nem sempre dá pra dizer o que pensa, por mais que a gente queira.

    Ótima resenha

    Beijitos

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    1. Mas de certa forma até que é necessário se pensarmos bem, não dá exatamente para ser verdadeiro sempre que quisermos, já pensou toda vez que não nos agradarmos com uma decisão de um chefe, não dá para mandá-lo para aquele lugar. Mas é essa a maior agonia do Holden, não importa como seja você se será pego por essa falsidade e a reproduzirá.

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  2. Juliana mais uma vez vc se supera na resenha, muito boa mesmo. Confesso que já tinha ouvido falar muito desse livro mas ainda nao tinha uma idéia mais real do que se tratava e agora com sua resenha pude ter certeza que esse livros nao faz meu estilo, mas mesmo assim parabéns pela leitura e pela volta do Desafio Um Clássico por mês. Vc sabe que estou fazendo lá no blog né!!!???? Mas tem meses que realmente saem do controle e nao conseguimos.
    Bjos e sucesso com os próximos clássico!!!!

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  3. Oi Juh *-*
    Adorei a coluna! (Vc tem colunas muito legais sabia?)
    É tão legal a ideia de ler um clássico por mês! - Eu devia fazer algo assim, mas nunca faço! rsrs
    Também acho muito mais difícil fazer resenha de livros que amo do que os que não gosto! É muito mais fácil explicar ago que não gosto do que algo que amo (isso não faz muito sentido...Sou meio pertubada mesmo kkkkkk)

    Adorei a resenha, tbm me identifico com o protagonista, como evitar sentar sozinha e julgar as pessoas na sua cabeça? Acho que todo mundo já fez isso...
    É tão legal quando a gente descobre o lado bom do protagonista de pouquinho em pouquinho neh? Estou muito curiosa com o livro aqui, parece ser um dos que eu amaria!!!

    Tem resenha nova lá no blog, quer ler?
    Desde já obrigada!

    Fallen In Me
    - PatyScarcella

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  4. Eu tenho tanta vontade de ler O Apanhador no Campo de Centeio... Um amigo meu leu na escola dele e ele disse que é fenomenal, estou louco pra ler, e ainda mais agora depois dessa resenha super positiva.

    beijão
    www.fernandoreads.com

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  5. Tenho muita vontade de ler o livro. Sempre falam bem.
    Sua resenha me fez ficar com mais vontade ainda, porque você fez comentários tão interessantes sobre o Holden.

    Beijos,
    Carissa
    www.carissavieira.com

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  6. Antes de falar da sua resenha tenho que dizer que adorei a ideia de ler um clássico por mês :) Me lembrou meus tempos de oitava série quando eu coloquei como meta ler um clássico nacional por semana (Eu era rata de biblioteca, e consegui por 2 meses direitinho... depois eu maneirei e li sem metas)
    Vou confessar, não conhecia praticamente nada sobre O Apanhador no Campo de Centeios e foi uma surpresa ler sobre um enredo sensível e com um toque de acidez, fiquei curiosa para ler sobre o Holden. O quote final é muito tocante também, já me senti assim várias vezes, obrigada pela dica. Vou procurar para comprar

    Beijos,
    Jhey
    www.passaporteliterario.com

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  7. Um verdadeiro clássico
    Mas ainda não tive oportunidade de ler
    Gostei bastante da resenha
    Primeiro vez que venho aqui e Amei o blog
    Estou seguindo e curtindo

    Beijos
    @pocketlibro
    http://pocketlibro.blogspot.com.br

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